A primeira imagem do Japão é-nos dada através da janela do avião que nos mostra infinitos hectares de campos agrícolas antes da chegada ao aeroporto internacional de Narita. À chegada, as autoridades embora não sejam sorridentes e afáveis, não são antipáticas e tratam-nos com bastante respeito sem que o mesmo se confunda com subserviência. A emoção de ver um aeroporto muito bem conservado, repleto de
outdoors com caracteres japoneses e apenas funcionários nipónicos, é indescritível e dá-nos a sensação de dever cumprido, finalmente cheguei ao Japão. No entanto, ainda há que chegar a Tóquio e para isso precisamos viajar de expresso, um comboio rápido que faz a ligação entre Narita e a capital, em 60 minutos, ou, Shinjuku (o célebre bairro de Tóquio do filme
Lost in Translation), em 90.
Shinjuku, no centro da cidade, tem a estação de caminhos-de-ferro mais movimentada do mundo, utilizada por mais de 2 milhões de pessoas diariamente. À chegada a Shinjuku, onde fiquei hospedado, o ritmo é alucinante e já estava no fim da hora de ponta. Nunca vi tanta gente junta, a caminhar para sítios distintos, nem mesmo nos melhores dias do Estádio da Luz em que se perde a vista ao fim do maranhal de gente que caminha na zona do estádio.

Tive que recorrer ao Metro para fazer duas estações até
Shinjuku gyoemmae, a décima estação da linha Marunouchi. O metro de Tóquio tem mais de 220 estações e cada uma delas tem no mínimo 10 saídas. É perfeitamente possível circular apenas subterraneamente, sem sair para o exterior, dado que todas as linhas se encontram ligadas por túneis, não sendo com surpresas que nos deparamos com outdoors que indicam
"Yarakucho line: 640 m", para que os utentes tenham conhecimento que distam 640m de outra linha de metro. O metro de Tóquio pode prefigurar-se como verdadeiro quebra-cabeças mas posso assegurar que no final do primeiro dia já me conseguia orientar bem, adaptei-me facilmente ao funcionamento da cidade e ao segundo dia já me sentia bastante confortável a circular pela cidade.
A infra-estrutura hoteleira em que fiquei, embora no centro da cidade, disponibilizava quartos a preços bastante acessíveis, uma realidade possível em vários hoteis de Tóquio, por incrível que pareça. Ainda assim, não posso deixar de destacar o excelente tratamento que tive por parte dos funcionários, já para não dizer que dispunha de uma cadeira de massagens, uma máquina de café e outra para aquecer água para o chá, caso quisesse, bem como inúmeros champôs e géis de banho. Não pedi nada disto, nem sequer utilizei, mas colocaram à minha disposição. Internet gratuita em todos os quartos, bem como dois computadores centrais de utilização igualmente gratuita de utilização livre. A limpeza nos quartos era feita conforme as saídas do cliente, pelo que algumas vezes cheguei a ter o quarto limpo duas vezes. Tudo isto justifica-se com o facto de os japoneses terem uma vontade forte em agradar quem os visita e em manter as instalações o mais higiénicas possível.
Por falar em higiéne e limpeza, diga-se que os japoneses são exímios na arte de manterem espaços públicos bem conservados. É proibido fumar nas ruas de Tóquio, excepto em espaços dedicados para o efeito, mas é permitido fumar em restaurantes. No entanto, não se vêem caixotes do lixo na rua e, pasmem-sem, nem um papel deitado no chão, uma beata de cigarro, um risco, uma parede partida ou rachada, um graffiti, um nome numa parede. Rigorosamente nada! Nem mesmo nas estações de comboio. É impressionante o sentido de sociedade e respeito dos japoneses no dia-a-dia. O respeito pelo próximo e a o sentido de sociedade são mesmo os dois princípios pelos quais se rege o Japão, motivo pelo qual nas dezenas de viagens de metro e comboio que fim nunca ouvi um toque de telemóvel (os japoneses mantêm-nos em silêncio para não incomodar os outros), as conversas em transportes públicos são sempre num tom de voz baixo e ninguém come enquanto viaja pois é considerado falta de educação.

No respeitante a pessoas, não é possível identificar um "estilo japonês". Há gente para todos os gostos, destacando no entanto as mulheres: são bonitas, extremamente femininas, com gosto nelas próprias, e, ao contrário da maioria das matarruanas portuguesas que preferem o excesso de conforto (sabrinas, chinelos, roupas largas, pijamas, penteados para desenrascar, etc), as nipónicas não dispensam um cabelo comprido, extremamente bem cuidado, uma saia e um salto alto. Quem trabalha em escritórios recorre sempre a roupas executivas que, sem qualquer dúvida, valorizam a imagem e aumentam a credibilidade, ao contrário do desleixe que se vê por estes lado. As japonesas gostam de exibir as pernas e nas alas mais radicais da moda, encontramos jovens e mulheres com calções rasgados, mini-saias mais curtas que cintos e até nos deparamos com aquelas que circulam em lingerie na rua com baby dolls e cintos de ligas, como pude ver com os meus próprios olhos. A atitude dos japoneses de respeito pelo próximo, associa-se à indiferença: cada um faz o que quer e anda como quer, pelo que, ao contrário de outros países, não vemos homens dobrarem o pescoço para ver as pernas das mulheres, assobiarem, mandarem piropos, ou algo do género. A atitude é mesmo de indiferença. Vemos ainda com frequência senhoras mais conservadoras que não dispensam a sua faceta feminina e até senhoras vestidas de gueixa. Nenhuma delas é olhada ou tratada com desdém.
O arrojamento nas roupas e na exibição dos atributos físicos contrasta com um interior tímido e introvertido. Só assim se explica que as mulheres japonesas olhem para os estrangeiros de alto a baixo (pelo menos falo por mim) e, sempre que se olha para elas, desviem o seu olhar automaticamente e baixem a cabeça. De cada vez que as abordei para perguntar onde fica um determinado lugar, ou outro tipo de informação, ficaram envergonhadas, desfizeram-se em riso e perguntaram, diversas vezes, de onde era e o que fazia.
Por hoje fico por aqui sobre as minhas impressões do Japão.
Um casamento a que tive oportunidade de assistir